7 CIDADES PERDIDAS que o Lidar revelou sob florestas e mudou o que sabemos sobre antigas civilizações
Meta descrição: Conheça 7 CIDADES PERDIDAS que o Lidar ajudou a revelar sob densas florestas, mostrando antigas estradas, bairros, reservatórios e centros urbanos que mudaram a arqueologia.
Imagine caminhar por uma floresta tão fechada que você mal consegue enxergar alguns metros à frente. Acima da sua cabeça existem árvores enormes. No chão, raízes, folhas e terra cobrem quase tudo. Agora imagine que, debaixo dessa vegetação, existem antigas estradas, plataformas, casas, reservatórios e até grandes centros urbanos. Durante muito tempo, encontrar essas estruturas exigia anos de caminhada, escavação e trabalho de campo.
7 CIDADES PERDIDAS que o Lidar ajudou a revelar é uma história que mostra como uma tecnologia capaz de medir o relevo do terreno mudou a forma como arqueólogos observam regiões cobertas por florestas. Em vez de olhar apenas para aquilo que está visível entre as árvores, os pesquisadores conseguem criar modelos digitais do solo e identificar formas que podem ter sido construídas por seres humanos há centenas ou milhares de anos.
Isso não significa que um computador olhe para uma imagem e diga automaticamente: “Aqui existe uma cidade antiga”. A realidade é bem mais cuidadosa. O Lidar ajuda a localizar formas no terreno. Depois vêm os arqueólogos, o trabalho de campo, as comparações, as escavações e, quando possível, a datação.
É justamente essa combinação entre tecnologia e arqueologia tradicional que torna esses estudos tão interessantes.
7 CIDADES PERDIDAS que o Lidar ajudou a enxergar sob a vegetação
Antes de conhecer os sete casos, vale entender uma coisa.
A expressão “cidades perdidas” é muito usada em títulos e conteúdos sobre arqueologia, mas precisa ser entendida com cuidado.
Algumas cidades desta lista, como Caracol e Tikal, já eram conhecidas havia muito tempo. O que estava “perdido” era boa parte de sua verdadeira dimensão.
Em outros casos, como Valeriana, os dados revelaram um grande centro urbano que não estava reconhecido dessa forma pela comunidade científica.
Então, o que o Lidar está fazendo não é apenas “encontrar cidades”. Muitas vezes ele está revelando que aquilo que parecia ser uma pirâmide isolada no meio da floresta fazia parte de uma enorme paisagem ocupada por pessoas.
É uma diferença importante.
O que é Lidar e por que ele funciona tão bem na arqueologia?
Lidar vem da expressão inglesa Light Detection and Ranging.
O nome pode parecer complicado, mas a ideia básica é simples.
Um aparelho, muitas vezes colocado em um avião ou helicóptero, envia pulsos de laser em direção à superfície. O sistema mede quanto tempo essa luz leva para voltar. Com essas medições e informações precisas sobre a posição do aparelho, é possível calcular distâncias e produzir um enorme conjunto de pontos com informações sobre a altura do terreno.
Imagine que você jogasse milhões de pequenos “pontos de medição” sobre uma paisagem.
Muitos atingiriam folhas e galhos.
Outros conseguiriam passar por pequenos espaços entre a vegetação e chegar ao chão.
Depois, os computadores podem separar parte desses dados e produzir um modelo do relevo.
O USGS explica que os dados de Lidar formam inicialmente uma “nuvem de pontos”. A vegetação e outras estruturas podem ser filtradas para produzir um modelo digital do chamado terreno nu, ou seja, uma representação da superfície abaixo de muitos dos elementos que dificultam a visão.
É isso que torna a tecnologia tão útil em florestas.
Ela não faz as árvores desaparecerem de verdade.
Ela permite que pesquisadores criem uma representação digital do terreno com a vegetação filtrada.
Para a arqueologia, isso pode revelar pequenas elevações, depressões, estradas, plataformas e outras formas que dificilmente seriam percebidas durante uma caminhada comum.
Mas o Lidar não substitui a escavação
Esse ponto precisa ficar muito claro.
Uma forma retangular em um mapa não conta sozinha quem a construiu.
Também não informa automaticamente sua idade.
Muito menos explica para que ela servia.
O próprio trabalho arqueológico com Lidar depende de análise e confirmação no terreno.
No Vale do Upano, por exemplo, Stéphen Rostain destaca que a tecnologia foi fundamental para enxergar a paisagem em grande escala, mas que ela não substitui as escavações tradicionais. Foram escavações e outros estudos que forneceram informações sobre ocupação, alimentação e diferentes períodos do sítio.
Pense no Lidar como um mapa extremamente detalhado que mostra onde vale a pena olhar.
O arqueólogo ainda precisa descobrir o que aquelas marcas significam.
1. Caracol, Belize: quando uma cidade conhecida ficou muito maior
Caracol é um antigo centro maia localizado em Belize.
Quando o Lidar entrou nessa história, arqueólogos já estudavam a região havia décadas.
Em abril de 2009, um levantamento cobriu aproximadamente 200 quilômetros quadrados da paisagem de Caracol.
O resultado teve grande importância para a arqueologia das florestas tropicais.
As imagens mostraram uma paisagem profundamente modificada, com assentamentos, terraços agrícolas, reservatórios residenciais, caminhos e outras estruturas espalhadas por uma área enorme.
Isso ajudou a mudar a forma de imaginar uma antiga cidade maia.
Talvez você pense em uma cidade antiga como um pequeno conjunto de grandes templos, praças e pirâmides.
Mas uma cidade precisa de muito mais.
As pessoas precisam morar em algum lugar.
Precisam produzir alimentos.
Precisam circular.
Precisam de água.
Em Caracol, o Lidar ajudou a enxergar justamente esse lado da vida urbana.
O estudo publicado no Journal of Archaeological Science descreveu estruturas, estradas e terraços agrícolas que podiam apresentar relevos muito pequenos e ainda assim aparecer nos dados.
Por isso Caracol se tornou um caso tão importante.
O sítio não havia sido “encontrado” pelo Lidar.
O que mudou foi a visão sobre sua escala e sobre a maneira como os antigos maias transformaram o ambiente ao redor.
2. Mahendraparvata, Camboja: uma capital escondida no planalto
Nossa próxima parada fica muito longe da América Central.
No Camboja existe uma região montanhosa chamada Phnom Kulen.
Inscrições antigas já indicavam que essa região estava ligada a Mahendraparvata, uma antiga capital do período inicial do mundo Khmer.
O problema era que, em meio à floresta, os vestígios arqueológicos pareciam dispersos.
Havia templos e outras estruturas, mas enxergar o conjunto da cidade era muito mais difícil.
Levantamentos aéreos realizados em 2012 e 2015 mudaram essa situação.
Pesquisadores combinaram Lidar, estudos de campo, mapeamento e escavações. O trabalho publicado na revista Antiquity em 2019 definiu uma extensa rede urbana datada do século IX e associada a Mahendraparvata.
De repente, vestígios que podiam parecer isolados começaram a fazer parte de um mesmo desenho.
O estudo mostrou uma paisagem planejada, com estruturas alinhadas e elementos ligados à organização da antiga capital.
Esse caso ensina algo importante.
Às vezes, o grande problema não é encontrar cada ruína separadamente.
É perceber que todas aquelas ruínas faziam parte de um sistema.
É como encontrar várias peças de um quebra-cabeça espalhadas por uma sala. Você conhece as peças, mas ainda não consegue ver a figura completa.
O Lidar ajudou os pesquisadores a olhar para a figura inteira.
3. Tikal e o norte da Guatemala: uma paisagem muito mais ocupada
Tikal é uma das cidades maias mais famosas do mundo.
Suas grandes construções já eram conhecidas muito antes da chegada do Lidar.
Mas em 2016 aconteceu algo muito maior do que simplesmente mapear um único sítio.
A PACUNAM LiDAR Initiative realizou um levantamento de aproximadamente 2.144 quilômetros quadrados no norte da Guatemala.
A pesquisa publicada na revista Science em 2018 mostrou uma paisagem de ocupação muito mais intensa e interligada do que uma visão baseada apenas nos monumentos conhecidos poderia sugerir.
A análise identificou 61.480 estruturas antigas em toda a região examinada.
O trabalho também mostrou investimentos em agricultura, estradas e outros tipos de infraestrutura. A pesquisa levou os autores a reavaliar questões sobre população, produção agrícola, relações entre áreas urbanas e rurais e organização política dos antigos maias.
Tikal estava dentro desse contexto maior.
Isso ajuda a abandonar uma imagem muito comum: a de enormes pirâmides cercadas por uma floresta quase vazia.
Na realidade, grandes centros faziam parte de paisagens humanas complexas.
Havia moradias.
Havia campos.
Havia estradas.
Havia áreas mais densas e outras menos ocupadas.
Havia conexões entre diferentes centros.
É como olhar para uma cidade moderna apenas através de sua catedral ou de seu prédio mais famoso.
Você estaria vendo algo importante, mas não estaria vendo a cidade inteira.
Um número alto não significa que tudo existiu ao mesmo tempo
Existe um cuidado importante ao interpretar esses mapas.
Se milhares de estruturas aparecem juntas no levantamento, isso não quer dizer automaticamente que todas estavam ocupadas exatamente no mesmo ano.
Sítios arqueológicos podem ter séculos de história.
Uma construção pode ser mais antiga.
Outra pode ter sido erguida depois.
Por isso cronologia, escavação e comparação continuam sendo fundamentais.
Os próprios estudos populacionais deixam claro que transformar uma contagem de estruturas em estimativas de habitantes envolve hipóteses e margens de incerteza.
4. Valeriana, México: uma grande cidade que não estava reconhecida pelos pesquisadores
Agora chegamos a um dos casos que mais se aproxima da ideia popular de uma cidade escondida.
No estado mexicano de Campeche, pesquisadores analisaram dados de Lidar que originalmente haviam sido coletados para objetivos ambientais.
Ou seja, não foi necessário realizar primeiro um voo criado especialmente para procurar uma cidade antiga.
Ao estudar esses dados, a equipe encontrou uma grande área urbana maia que não estava reconhecida pela comunidade científica como um grande centro.
O estudo foi publicado pela revista Antiquity em 29 de outubro de 2024.
Os pesquisadores chamaram o sítio de Valeriana, em referência a uma lagoa próxima.
O sítio possui dois grandes núcleos de arquitetura monumental separados por cerca de 2 quilômetros, ligados por ocupação densa e modificações na paisagem.
No maior núcleo, os pesquisadores identificaram características associadas a importantes centros políticos maias, incluindo praças fechadas, uma grande via elevada, pirâmides-templo, uma quadra para o jogo de bola e um reservatório criado pelo represamento de um curso de água sazonal.
Há outro detalhe curioso.
Partes dos vestígios ficavam próximas de uma rodovia.
Isso mostra como uma paisagem antiga pode permanecer pouco conhecida cientificamente mesmo perto de áreas utilizadas atualmente.
Não porque ninguém jamais tenha passado por ali.
Mas porque enxergar a organização completa do sítio no meio da vegetação é outra história.
5. Dzibanché, México: quase 14 mil estruturas em 103 km²
Dzibanché, em Quintana Roo, já era conhecida pela arqueologia.
Mais uma vez, portanto, não estamos falando de uma cidade que ninguém conhecia.
Estamos falando de sua verdadeira escala urbana.
Um levantamento realizado em 2017 para o Instituto Nacional de Antropologia e História do México cobriu 103 quilômetros quadrados.
A análise identificou estradas elevadas conectando importantes centros monumentais a outros grupos cerimoniais e assentamentos ao redor.
O estudo publicado posteriormente em Latin American Antiquity contabilizou 13.928 estruturas dentro da área examinada.
A densidade era particularmente alta ao redor dos principais complexos monumentais.
Os pesquisadores também estudaram reservatórios e a distribuição das áreas residenciais.
Isso ajuda a entender que uma cidade antiga não era formada apenas por templos.
Água, acesso, deslocamento, agricultura e espaços de encontro faziam parte do funcionamento daquela sociedade.
O estudo indica que Dzibanché pode ter sido uma das maiores e mais densas concentrações urbanas das terras baixas maias durante o período Clássico Inicial. Os próprios autores, porém, observam que uma cobertura maior de Lidar ainda é necessária para avaliar completamente sua extensão.
É assim que a ciência funciona.
Uma pesquisa pode revelar algo enorme e, ao mesmo tempo, deixar novas perguntas abertas.
6. Cotoca e a cultura Casarabe, Bolívia: urbanismo na Amazônia
Durante muito tempo, existiram ideias bastante simplificadas sobre o passado da Amazônia.
Uma delas era a de que grandes formas de organização urbana não poderiam ter existido em determinadas partes da região.
Pesquisas arqueológicas vêm mostrando que a história foi muito mais complexa.
Em 2022, um estudo publicado na revista Nature apresentou dados de Lidar sobre sítios ligados à cultura Casarabe, que ocupou uma área dos Llanos de Mojos, na Bolívia, aproximadamente entre 500 e 1400 d.C.
A pesquisa revelou dois assentamentos muito grandes e 24 sítios menores, dos quais 15 já eram conhecidos.
Os dois grandes assentamentos possuíam 147 e 315 hectares.
Entre eles estava Cotoca.
A paisagem apresentava grandes plataformas, estruturas em forma de U, montes retangulares, pirâmides cônicas de até aproximadamente 22 metros de altura, estradas elevadas, canais e reservatórios.
Os centros não estavam simplesmente espalhados sem relação entre si.
Eles formavam um sistema hierarquizado de assentamentos conectados.
Os pesquisadores classificaram esse padrão como uma forma de urbanismo tropical de baixa densidade.
Em palavras simples: as pessoas viviam em uma paisagem organizada e conectada, mas ela não precisava ter a mesma aparência compacta de uma cidade moderna cheia de prédios lado a lado.
Havia áreas construídas, espaços agrícolas, caminhos e infraestrutura de água distribuídos pelo território.
Essa pesquisa ajudou a fortalecer uma ideia que já vinha crescendo dentro da arqueologia amazônica: populações pré-hispânicas foram capazes de transformar profundamente partes da paisagem amazônica.
7. Vale do Upano, Equador: cidades com cerca de 2.500 anos
Talvez o caso mais impressionante desta lista esteja no Equador.
O Vale do Upano fica na região amazônica próxima às encostas orientais dos Andes.
O arqueólogo francês Stéphen Rostain pesquisa a área desde a década de 1990.
Escavações já haviam encontrado plataformas, praças, caminhos e outros sinais de ocupação.
Mas faltava uma visão ampla.
Em 2015, foi realizado um levantamento aéreo de Lidar.
Quando esses dados foram estudados em detalhes, surgiu uma paisagem muito maior.
A pesquisa publicada na revista Science em janeiro de 2024 descreveu um sistema denso de centros pré-hispânicos com plataformas monumentais, praças, estradas e áreas agrícolas.
A cronologia torna o caso ainda mais importante.
As escavações indicam ocupação desde aproximadamente 500 a.C., continuando até algum momento entre 300 e 600 d.C.
Isso significa que parte dessa história começou cerca de 2.500 anos atrás.
O levantamento cobriu cerca de 600 quilômetros quadrados, segundo o CNRS, e mostrou que não existiam apenas centenas de plataformas construídas por seres humanos, mas milhares.
As antigas estradas chamam bastante atenção.
Algumas eram muito retas e podiam chegar a cerca de 13 metros de largura, atravessando terrenos difíceis.
Havia também sistemas relacionados à drenagem e ao cultivo.
Você consegue imaginar o trabalho necessário?
Sem tratores.
Sem caminhões.
Sem máquinas modernas.
Ainda assim, grupos humanos reorganizaram partes enormes da paisagem.
O mais importante é não transformar isso em mistério fantasioso.
Não precisamos de explicações sobrenaturais.
Temos evidências de sociedades humanas capazes de planejamento, agricultura, construção e organização em grande escala.
E isso já é extraordinário.
O que essas sete paisagens têm em comum?
Mesmo estando em regiões e épocas diferentes, esses casos apresentam um ponto em comum.
A vegetação pode esconder a escala de uma antiga ocupação.
Quando um arqueólogo está no chão, talvez consiga enxergar uma pequena elevação ou um antigo muro.
Mas imagine tentar perceber que esse pequeno muro continua por quilômetros e faz parte de uma rede conectada a dezenas de outros elementos.
É muito difícil.
O Lidar muda a escala do olhar.
Em Caracol, ele mostrou uma paisagem urbana e agrícola extensa.
Em Mahendraparvata, ajudou a enxergar a organização de uma antiga capital.
No norte da Guatemala, revelou dezenas de milhares de estruturas.
Em Valeriana, chamou atenção para um grande centro urbano que não estava reconhecido cientificamente dessa maneira.
Em Dzibanché, mostrou uma densidade e uma organização muito maiores.
Em Cotoca e outros sítios Casarabe, revelou uma forma de urbanismo amazônico.
No Vale do Upano, tornou visível uma rede de centros, plataformas e estradas cuja história começou há aproximadamente 2.500 anos.
Não existe apenas uma “cidade perdida” aqui.
Existe uma nova maneira de enxergar paisagens antigas.
O que o Lidar consegue mostrar — e o que ele não consegue
Essa talvez seja a parte mais importante para quem gosta de arqueologia.
Tecnologia não elimina a necessidade de cautela.
O Lidar pode mostrar uma elevação retangular.
Pode mostrar uma linha reta atravessando a mata.
Pode revelar uma depressão.
Pode indicar uma possível plataforma.
Mas alguém precisa interpretar aquilo.
E interpretações podem estar erradas.
No estudo de Campeche que revelou Valeriana, por exemplo, os autores discutem os desafios de reconhecer corretamente estruturas nos dados e a importância de considerar diferenças entre formas naturais e modificações humanas.
O mesmo princípio vale para todos os estudos desse tipo.
Por isso arqueólogos procuram combinar diferentes formas de evidência:
escavações;
cerâmicas;
datação;
mapas;
análise do terreno;
inscrições, quando existem;
comparação entre estruturas;
e observação direta.
Um mapa bonito não é o fim da pesquisa.
Muitas vezes é apenas o começo.
Por que essas pesquisas mudaram nossa visão sobre antigas cidades?
Durante muito tempo, ruínas monumentais influenciaram muito a imagem popular das antigas civilizações.
Se existisse uma grande pirâmide de pedra visível, ela chamaria atenção.
Se existisse uma estrada de terra escondida por árvores, raízes e séculos de sedimentos, ela poderia praticamente desaparecer da nossa visão.
Esse problema é especialmente grande em regiões tropicais.
Uma estrutura construída em terra pode se tornar uma pequena ondulação coberta por plantas.
Depois de séculos, um observador pode olhar para aquilo e pensar que se trata apenas de uma parte natural da paisagem.
O Lidar mostrou que alguns desses “vazios” eram menos vazios do que pareciam.
Isso não significa que todas as florestas escondam grandes cidades.
Também não significa que qualquer linha vista em uma imagem seja uma construção antiga.
Significa apenas que nossas ferramentas influenciam aquilo que conseguimos enxergar.
E quando uma ferramenta melhora, novas perguntas aparecem.
O que ainda pode estar escondido?
Essa pergunta é inevitável.
Grandes áreas de florestas tropicais ainda não receberam levantamentos arqueológicos de Lidar com o mesmo nível de detalhe dos casos apresentados aqui.
Isso não permite afirmar que existam milhares de grandes cidades esperando para serem encontradas.
Seria especulação.
Mas os estudos mostram que ainda existem lacunas importantes.
Os pesquisadores de Valeriana afirmam claramente que há grandes espaços de conhecimento sobre a presença ou ausência de grandes sítios em áreas das terras baixas maias que ainda não foram mapeadas.
A resposta científica, portanto, não é “há cidades por toda parte”.
A resposta é mais interessante:
ainda existem regiões onde simplesmente não sabemos.
E é justamente aí que novas pesquisas entram.
Conclusão
A história das 7 CIDADES PERDIDAS que o Lidar ajudou a revelar mostra algo fascinante: às vezes aquilo que pensamos estar ausente está apenas difícil de enxergar.
Caracol já era conhecida, mas sua paisagem era maior do que parecia.
Mahendraparvata deixou de parecer apenas um conjunto de estruturas dispersas.
O norte da Guatemala mostrou uma ocupação maia em escala regional.
Valeriana surgiu nos dados como um grande centro que não estava reconhecido cientificamente dessa forma.
Dzibanché mostrou uma densidade urbana impressionante.
Cotoca ajudou a mudar antigas ideias sobre a ocupação pré-hispânica da Amazônia.
E o Vale do Upano revelou um sistema urbano cuja história começou cerca de 2.500 anos atrás.
O mais interessante é que nada disso reduz a importância do arqueólogo com suas ferramentas tradicionais.
O contrário acontece.
O Lidar mostra onde olhar.
A arqueologia de campo ajuda a explicar o que estamos vendo.
Quando tecnologia, escavação e pesquisa científica trabalham juntas, a paisagem começa a contar histórias que ficaram escondidas durante séculos.
E talvez essa seja a grande lição dessas pesquisas.
A floresta não apagou necessariamente o passado.
Em muitos lugares, ela simplesmente o cobriu.
Principais pontos abordados
- O Lidar utiliza pulsos de laser para medir a superfície e produzir modelos detalhados do terreno.
- Em áreas florestadas, parte dos pulsos consegue chegar ao solo entre a vegetação.
- Caracol, em Belize, teve aproximadamente 200 km² mapeados em 2009.
- Mahendraparvata, no Camboja, foi identificada como uma extensa rede urbana associada a uma antiga capital Khmer.
- O levantamento de 2.144 km² no norte da Guatemala identificou 61.480 estruturas antigas.
- Valeriana, em Campeche, possui dois grandes núcleos monumentais separados por cerca de 2 km.
- O levantamento de Dzibanché registrou 13.928 estruturas em 103 km².
- Estudos da cultura Casarabe revelaram grandes assentamentos, estradas elevadas, plataformas, canais e reservatórios na Bolívia.
- No Vale do Upano, a ocupação começou por volta de 500 a.C., e o Lidar revelou milhares de plataformas e uma extensa rede de estradas.
- O Lidar não substitui escavações, datações e verificações feitas pelos arqueólogos no terreno.
- Nem todos os casos são “cidades perdidas” literalmente; em vários deles, a grande novidade foi revelar a verdadeira extensão de cidades já conhecidas.
Referências científicas utilizadas
Chase, A. F. et al. — Airborne LiDAR, archaeology, and the ancient Maya landscape at Caracol, Belize. Journal of Archaeological Science, 2011.
Acessar estudo sobre Caracol
Chase, A. S. Z.; Weishampel, J. — Using Lidar and GIS to Investigate Water and Soil Management in the Agricultural Terracing at Caracol, Belize. Advances in Archaeological Practice, 2017.
Acessar Cambridge Core
Chevance, J.-B. et al. — Mahendraparvata: an early Angkor-period capital defined through airborne laser scanning at Phnom Kulen. Antiquity, 2019.
Acessar estudo sobre Mahendraparvata
Canuto, M. A. et al. — Ancient lowland Maya complexity as revealed by airborne laser scanning of northern Guatemala. Science, 2018.
Acessar estudo na Science
Auld-Thomas, L. et al. — Running out of empty space: environmental lidar and the crowded ancient landscape of Campeche, Mexico. Antiquity, 2024.
Acessar estudo sobre Valeriana
Estrada-Belli, F.; Balanzario, S. — A Closer Look at Classic Maya Urbanism at Dzibanche/Kaanu’l through Airborne Lidar Mapping. Latin American Antiquity, publicado online em 2025.
Acessar estudo sobre Dzibanché
Prümers, H. et al. — Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon. Nature, 2022.
Acessar estudo na Nature
Rostain, S. et al. — Two thousand years of garden urbanism in the Upper Amazon. Science, 2024.
Acessar estudo sobre o Vale do Upano
NASA Earth Observatory — aplicações do Lidar na arqueologia e trabalhos em Caracol.
Acessar NASA Science
U.S. Geological Survey — explicação sobre dados Lidar e modelos digitais de elevação.
Acessar USGS
NOAA — What is LIDAR? Explicação institucional sobre o funcionamento da tecnologia.
Acessar NOAA
CNRS — Ancient cities in the Amazon. Entrevista e explicações de Stéphen Rostain sobre os trabalhos no Vale do Upano.
Acessar CNRS News
Publicar comentário